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quinta-feira, 11 de junho de 2026

Aro 27 foi a Santigo de Compostela pelo difícil Caminho da Geira Romana e Arrieiros

TEXTO: JOÃO CARLOS LOPES | FOTOS DR

Fé, determinação, percalços, proteção Divina e um homem que caiu ao rio 

Foram três dias incríveis aqueles que os 16 ciclistas do Núcleo de Cicloturismo Aro 27, de Fafe, viveram pelos trilhos do Caminho da Geira Romana e Arrieiros, parte dele também conhecido pelo Caminho do Ribeiro Minhoto. O trajeto português mais difícil de todos os caminhos conhecidos de Santiago e que só foi superado com a entrega de cada um e a ajuda de todos, incluindo o motorista José Carvalho que esteve sempre presente nos locais indicados e fez um trabalho que só quem beneficiou dele pode exatamente louvar. Recomenda-se para motorista do presidente da República, porque ele não falha em momento algum.

1.º DIA | Fafe - Lobios  

A saída no dia 4 de junho junto à Câmara Municipal de Fafe coincidiu com o hastear das bandeiras naquele local, entre elas a bandeira nacional, o que reforçou ainda mais o simbolismo de uma viagem como esta. Foi uma honra ver subir a nacional e interiorizar mais um partida para a aventura, como no tempo dos descobrimentos.  

O primeiro percalço ocorreu volvidos dois quilómetros da partida com o rebentar do elo de ligação de uma corrente, mas logo se fez sentir a camaradagem, o voluntarismo e acima de tudo o querer que todos chegassem ao destino. Mais três ou quatro quilómetros à frente, aconteceu o primeiro furo, que foi prontamente solucionado, por um grupo de “mecânicos” que pela destreza e rapidez pareciam saídos de um circuito de Fórmula 1.

A primeira inclinação acentuada ocorreu com a subida do Confurco, com passagem pelo mítico Salto da Pedra Sentada, como se fosse levado para o destino um pouco do que mais icónico tem Fafe. 

Os quilómetros foram sumindo à frente das rodas das bicicletas até ao miradouro de Guilhofrei, onde mais à frente houve o primeiro reforço, o que deu forças para os quilómetros que se sucederam até ao almoço, em S. Bento da Porta Aberta, outro dos centros religiosos da Europa. 

De S. Bento a Covide foi um salto e daqui até à Mata de Albergaria e Portela do homem foi outro, apesar das muitas pedras no caminho, que obrigaram a andar com as máquinas às costas. Houve novo reforço até se atingir a meta do primeiro dia, em Lobios, localidade que serviu para pernoitar e jantar, depois de todas as burocracias exigidas pelas autoridades espanholas 

Foi neste local que o homem caiu ao rio

2.º DIA | Lobios - Pazos de Arenteiro  

No segundo dia o destino foi Pazos de Arenteiro, com o terreno a inclinar soberbamente, e as dificuldades das inclinações a serem superadas pela fé, determinação e camaradagem do grupo, não se sentindo grande diferença entre quem ia em bicicleta elétrica e normal, porque a compreensão e a simbiose criada entre todos não permitiu distanciamentos, nem tão pouco grandes atrasos e aí este grupo merece um reconhecimento porque se fundiu num único objetivo diluindo qualquer dificuldade. Houve sempre ajuda, preocupação e vontade para que o todo fosse um só. A chegada a Pazos foi prazerosa e apesar do isolamento da localidade, ninguém se sentiu só e no jantar os laços entre todos saíram ainda mais reforçados, regados com muita cerveja, o que foi apanágio em todos os dias, servindo para unir o grupo que crescia com a fermentação deste saboroso néctar.

Esta foto atesta que tudo acabou bem 
Este dia ficou marcado por dois acontecimentos que dificilmente serão esquecidos. Ambos precederam a passagem em Castro Laboreiro. No primeiro um ciclista inexperiente em mecânica apertou demais o parafuso do selim e isso originou uma epopeia em busca de um parafuso e uma porca, valendo uma alma caridosa e a habilidade do Armando para solucionar um problema que podia ter custado o fim de linha para esse atleta. O outro, foi um pouco mais grave ainda: numa paragem para fazer um registo fotográfico numa ponte, foi solicitado a um dos poucos peregrinos que encontramos pelo caminho que nos tirasse uma foto, ao que acedeu de boa vontade. Porém, na tentativa de obter o melhor ângulo acabou por cair ao rio, para espanto de todos que estavam de olhos nele. A apreensão e preocupação foi geral, mas Deus protege os que ama e os arbustos que se encontravam na margem não só evitaram que o homem tivesse caído à água como que não lhe tivesse acontecido nada. Mais do que isso a preocupação dele em não deixar cair o telemóvel topo de gama que lhe tinham passado para a mão foi tanta que ele estava com o braço no ar e o aparelho bem agarrado. Tudo acabou por correr bem e até o chapéu que parecia perdido foi resgatado. Para a posterioridade ficou uma foto com o afortunado sinistrado.     

3.º DIA | Pazos de Arenteiro - Santiago de Compostela   

O último dia começou com uma subida astronómica, mas mais uma vez foi suavizada pelo incentivo geral e pela boa comunicação. Onde não havia outra hipótese, devido a pedras altas ou piso muito escorregadio, andava-se com a bicicleta à mão. O nível das dificuldades foi subindo, mas a vontade de superar com êxito esta viagem era superior, porque no íntimo de cada um era muito mais que andar de bicicleta, era o apego a Deus e à fé que cada um levou consigo que fazia mover e ultrapassar cada obstáculo e nem dois incidentes aparentemente mais graves demoveram os seus protagonistas de continuar. Entre subidas e descidas, algum sofrimento e muita adrenalina chegou-se Codeseda um dos poucos sítios deste caminho onde se podia comer e beber e onde a senhora do estabelecimento fez questão de tirar uma fotografia ao grupo para a posterioridade.  

O cheiro a Santiago já se fazia sentir e a última paragem em Estrada serviu para acabar com o presunto e tudo o que ainda restava na carrinha.

Todos ganharam força extra para os quilómetros finais e a entrada em Santiago foi triunfal, mas para alguns as forças transformaram-se em emoção e as lágrimas percorreram-lhe a face.  

Não houve espaço para souvenires porque o tempo disponível para o banho, num ginásio local, estava apertado e o local de recolha das bicicletas também ficava em contramão. 

A proteção Divina 

No regresso fez-se paragem na Vila mais antiga de Portugal para um jantar de encerramento. Depois foi seguir até Fafe, descarregar as bicicletas e regressar ao lar cheios de histórias para contar, de momentos que fizeram vibrar, outros de apreensão e alguma angústia, mas no fim tudo acabou bem porque a Nossa Senhora de Antime, através da linha Divina, ligou a Santiago de Compostela e ambos fizeram esforços para que os sustos não passassem disso, para que todos os problemas tivessem solução e para que os peregrinos chegassem todos bem ao destino e a casa. Foi o que realmente aconteceu. A frase "estás a jogar com a Santinha", nunca fez tanto sentido.

Agradecimentos  

José Carvalho, um motorista
 com pinta e de 1.ª qualidade
  
O presidente, João Mendes, resumiu de forma esclarecedora os agradecimentos, de maneira que penso que todos assinam por baixo:

- Obrigado Paulo Cruz por toda a tua dedicação no planeamento dos percursos e dormidas. És a nossa estrela. 

- Em nome do ARO27 um agradecimento especial ao José Carvalho sempre presente com a carrinha para que nos mantivéssemos sempre hidratados e de barriga cheia e que nunca faltasse nada, mesmo o que era perdido pelo caminho. 

 - Agradecer também ao Alfredo Teixeira e a Carla Gonçalves pela comida espetacular que nos foi fornecida, estava tudo muito bom.  Agradecer a Luciana Andreia pelos bolos que estavam divinais.

 - Agradecer ao Ivo Teixeira pela cedência de algum material para que na falha de alguma bicicleta nos pudéssemos socorrer. 

- Ao Carlos Ribeiro, obrigado por ajudares a não perder nenhuma "ovelha" do nosso "rebanho".

Os mecânicos de serviço também fizeram um trabalho exemplar, destacando-se o Carlos Ribeiro e o Armando Gonçalves, sempre presentes e sempre prestáveis. 

Com gente magnífica assim fica sempre tudo muito mais fácil.